Dois modos de funcionamento do cérebro
É comum ouvir que, sob estresse intenso, o cérebro “trava”. No entanto, do ponto de vista neurocognitivo, o que ocorre não é uma falha global do funcionamento mental, mas uma mudança no tipo de processamento que passa a predominar.
Para compreender isso, é útil pensar em dois grandes modos de funcionamento cerebral, sustentados por redes neurais distintas e complementares.
O modo focado: rede de controle executivo
Esse é o modo que utilizamos quando estamos orientados para tarefas externas e objetivos claros, como resolver problemas, estudar, planejar, tomar decisões deliberadas.
Ele depende principalmente da Rede de Controle Executivo, que envolve o córtex pré-frontal dorsolateral e regiões parietais. Essa rede está associada a funções de atenção sustentada, foco seletivo, memória de trabalho e inibição de distrações e impulsos. Trata-se, portanto, do sistema que sustenta o pensamento dirigido, analítico e organizado.
O modo padrão: a rede de modo padrão
Quando não estamos engajados em uma tarefa externa específica, entra em maior atividade a chamada Rede de Modo Padrão (Default Mode Network). Essa rede inclui regiões como o córtex pré-frontal medial, o cíngulo posterior e áreas temporais. Ela está associada a processos internos como devaneio, recordácões autobiográficas, simulações do futuro, imaginação e associação livre de ideias.
É nesse modo que frequentemente surgem insights, novas conexões e soluções que não aparecem durante o foco deliberado.
O impacto do estresse sobre esses dois modos
Quando o sistema de ameaça é ativado de forma intensa ou crônica — como ocorre na ansiedade persistente, no medo prolongado ou em contextos de estresse contínuo — há maior ativação da amígdala, aumento de mediadores do estresse, como cortisol e noradrenalina e priorização de respostas relacionadas à sobrevivência.
Esse estado modifica o funcionamento tanto da rede executiva quanto da rede de modo padrão.
O que acontece sob ameaça crônica
1. Redução da eficiência do córtex pré-frontal
Sob estresse elevado, o funcionamento do córtex pré-frontal torna-se menos eficiente. Como consequência, observam-se maior dificuldade de concentração, piora na organização do pensamento, redução da flexibilidade cognitiva e dificuldade em planejar e tomar decisões ponderadas. A sensação subjetiva frequentemente descrita é: “Eu sei o que deveria fazer, mas não consigo pensar com clareza”.
2. O modo padrão não se desativa — ele muda de qualidade
Um ponto crucial é que a rede de modo padrão não deixa de funcionar sob estresse. Em vez disso, seu conteúdo mental se transforma.
Ou seja:
- modo de rede padrão em contexto de segurança = insight e novas conexões, imaginação criativa, exploração mental
- modo de rede padrão com sistema de ameaça ativado = ruminação, preocupação repetitiva, simulação catastrófica
Assim, a mesma rede que, em condições de segurança, favorece criatividade e integração de experiências, passa a sustentar ruminação persistente, autocrítica excessiva e antecipações negativas do futuro.
A atividade mental continua intensa, mas organizada em torno da ameaça.
Assim, estados prolongados de ameaça tendem a produzir um padrão cognitivo caracterizado por aumento de vigilância, pensamento rígico e viés atencional para sinais de perigo; e redução de flexibilidade cognitiva, exploração mental livre e capacidade de imaginar cenários de forma segura e construtiva.
Por que intervenções emocionais são também intervenções neurofuncionais
Intervenções voltadas para regulação emocional, construção de sensação de segurança interna e desenvolvimento de compaixão contribuem para modificar o estado funcional do sistema nervoso, criando condições para que o córtex pré-frontal recupere eficiência, a rede de modo padrão volte a sustentar imaginação construtiva e insight e a mente recupere sua capacidade de integrar, criar e flexibilizar respostas.
Para resumir
O estresse não faz o cérebro parar de funcionar. Ele faz o cérebro trocar um modo exploratório e integrativo por um modo defensivo e vigilante.
O caminho para recuperar a capacidade de pensar com clareza e criatividade não é apenas “tentar se concentrar mais”, mas favorecer estados internos de segurança que permitam ao cérebro voltar a operar em modos mais flexíveis e integrados.
